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Artigos › 06/03/2018

Purificação

O povo de Deus foi privilegiado com a experiência da revelação amorosa de Deus, que o constituiu como sinal para os outros povos. A lei recebida no Sinai é o que se pode pensar de mais perfeito (Ex 20,1-7), na qual se estabelece de forma inigualável as relações com Deus e o trato das pessoas umas com as outras. Tudo se transformou em motivo de santo orgulho para as sucessivas gerações do povo escolhido, admirado pela sua fidelidade, mesmo sendo uma pequena nação diante de tantas outras, com as quais foi possível experimentar um confronto fecundo, instrumento de purificação e crescimento.

É que a lei oferecida por Deus, sendo excelente, viria a ser praticada por pessoas muito frágeis e limitadas, pelo que continuamente o Senhor lhes manda emissários portadores de chamadas à conversão e à volta para Deus. Não adiantava ter as normas fundamentais bordadas na própria roupa ou atadas com uma faixa em torno da cabeça. Era necessário trazê-las no coração e na prática cotidiana. E este povo era feito do mesmo barro que os seus vizinhos. E até hoje, em tempos da Boa Nova do Cristianismo, é necessário falar de conversão e entrar num caminho de purificação, pois não somos mais perfeitos do que os outros homens e mulheres de nosso tempo. Só que aprendemos a mergulhar no mar infinito da misericórdia de Deus, que nos reergue de nossos abismos profundos.

Um dos sinais importantes presença de Deus com seu povo foi o templo (Cf. Jo 2,13-15), vindo a ser considerado centro da vida religiosa. Lá se rezava sempre, e muitas pessoas peregrinavam, especialmente para a Páscoa judaica. No entanto, também este símbolo passou pelo desgaste quando ao seu uso pelo povo. Os profetas, como Jeremias, já denunciavam anteriormente as profanações do lugar sagrado: “Acaso esta casa consagrada ao meu nome tornou-se, a vosso ver, um esconderijo de ladrões?” (Jr 7,11). E Jesus, tomado do zelo que o devora interiormente, purifica o Templo, e tal gesto contribuirá para sua condenação à morte.

Ele chega de forma diferente, decepcionando os sonhos de poder de muitos de seus contemporâneos. Sua presença quer conduzir as pessoas do Templo edificado com tanto esforço ao novo Templo, o novo lugar que é ele mesmo, onde acontece o verdadeiro culto ao Pai do Céu. Jesus não destrói o Templo, antes o respeita profundamente, e com palavras duras e fortes que inaugurar um novo Templo e um novo Tempo!

É bom perguntar-nos se os vendilhões do Templo não existem ainda sob outras formas! Pode acontecer que também nós frequentemos o lugar sagrado apenas pelos nossos interesses individualistas, mesmo que seja a busca da salvação, sem descobri-lo como lugar de comunhão e gratuidade entre Deus e as pessoas que professam a fé! Deixemo-nos purificar! Nós cristãos professamos a fé no Cristo Morto e Ressuscitado. Com a fé, nossa vida tem uma meta a ser alcançada, impedindo-nos de sermos afogados pelos acontecimentos positivos ou negativos. Nosso olhar se volta para a plenitude do amor de Deus, acendendo continuamente a luz da esperança.

Com esta fé, passamos pelo mundo fazendo o bem, acreditando que é possível restaurar vidas e superar as muitas dilacerações existentes na sociedade. Para tanto, somos chamados a algumas atitudes e gestos. Para nós, a maldade não tem a última palavra em quem quer que seja. Olhamos para as pessoas e suas crises pessoais e descobrimos aquela fagulha, para não apagar a chama que fumega, pois no nome de Jesus as nações podem depositar a esperança (Cf. Mt 12,15-21; Is 42,1-4). No dia a dia, não desperdiçamos as oportunidades para tecer novos relacionamentos com as pessoas, aproveitando os eventuais laços que poderiam impedir a caminhada para compor redes de fraternidade. Onde quer que encontremos eventuais restos de edificações destruídas, recolheremos os pedaços para realizar a profecia: “Quando o invocares, o Senhor te atenderá, e ao clamares, ele responderá: Aqui estou! Se, pois, tirares do teu meio toda espécie de opressão, o dedo que acusa e a conversa maligna, se entregares ao faminto o que mais gostarias de comer, matando a fome de um humilhado, então a tua luz brilhará nas trevas, o teu escuro será igual ao meio-dia. O Senhor te guiará todos os dias e vai satisfazer teu apetite, até no meio do deserto. Ele dará a teu corpo nova vida, e tu serás um jardim bem irrigado, mina d’água que nunca deixa de correr. E a tua gente reconstruirá as ruínas que pareciam eternas, farás subir os alicerces que atravessaram gerações, serás chamado reparador e brechas, restaurador de caminhos, para que lá se possa morar” (Is 58, 9-12).

Deixemo-nos tocar pelo chicote de cordas de Jesus, permitindo que ele nos purifique. Caia a casca do orgulho e da vaidade, que nos engana para pensarmos ser mais perfeitos do que os outros. Seja derrubado o muro de defesa que nos cerca, para sabermos que somos, sim, vulneráveis e acolhidos por Deus por pura misericórdia. Permitamos que o Senhor, com a graça de seu Espírito Santo, penetre os meandros de nossa mentalidade egoísta. Aprendamos, com a graça da Quaresma que corre, a fazer um corajoso exame de consciência, com a luz dos mandamentos da Lei de Deus, para chegarmos humildes e sinceros, ao Sacramento da Penitência. Nossas Paróquias e Comunidades cristãs aproveitem para rever o cuidado com a Casa de Deus, que são as pessoas, feitas pelo Batismo templos do Espírito Santo, mas verifiquem também o uso que fazem de suas edificações destinadas ao culto divino.

Em vista de uma boa revisão de vida, abrindo-nos à purificação proposta pela Igreja na Quaresma, para “recordar e viver” aqui está o tesouro dos mandamentos, numa bem elaborada versão proposta pelo Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (433): “Eu sou o Senhor teu Deus! Primeiro: Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas. Segundo: Não invocar o santo nome de Deus em vão. Terceiro: Santificar os Domingos e festas de guarda. Quarto: Honrar pai e mãe e os outros legítimos superiores. Quinto: Não matar nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo. Sexto: Guardar castidade nas palavras e nas obras. Sétimo: Não furtar nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo. Oitavo: Não levantar falsos testemunhos nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo. Nono: Guardar castidade nos pensamentos e desejos. Décimo: Não cobiçar as coisas alheias. Estes dez mandamentos resumem-se em dois que são: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos”.

Por Dom Alberto Taveira Corrêa – Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará